


Texto de Fausto Paravidino com direção de Cynthia Reis e Michel Blois. Com Ana Lima, Diogo Benjamin e Pablo Sanábio Cenário - Alberto Renault, Figurino - Felipe Veloso, Iluminação - Paulo César Medeiros, Trilha Sonora - Carol Portes

Por Kátia Jórgensen
Kátia Jórgensen é uma das fundadoras da Cia. dos Atores Invisíveis e mantém o blog/podcast Luz&Sombra
Lev, Boris, Érica. Três personas interessantíssimas. Um triângulo. Seria pouco dizer um triângulo amoroso. Está mais para um círculo, um ciclo de idas e vindas de três vidas perdidas tentando se achar no meio da bagunça.
Quando entramos no espaço do SESC Copacabana (multiuso), somos surpreendidos por uma confusão de imagens e sons que representam perfeitamente o estado dos três personagens no começo do espetáculo.
Aos poucos vamos nos sentindo dentro daquele apartamento colorido e encantador. Pablo Sanábio nos apresenta um vivo e presente "Lev", cheio de conflitos, sem ser óbvio. O ator consegue dar a mão perfeita na interpretação naturalista mas não tão despojado a ponto de desperdiçar a arte do ator. Diogo Benjamim é Boris, um rapaz fechado e metódico. O ator mostra grande disponibilidade de jogo com os outros atores.Ana Lima é Érika, uma garota inconseqüente e sedutora. A atriz esbanja seu talento cômico sem exagerar no clichê da mulher vulgar, levando a personagem para o patético da superficialidade feminina.
O cenário é uma grande instalação do artista plástico Alberto Renault : um dos pontos fortes do espetáculo. É visualmente interessante e muito bem utilizado em cena (poderia ser só ilustrativo mas não é). A instalação é realmente a casa daqueles três jovens , numa versão estilizada. Ainda fazendo parte da instalação , a iluminação é bem informal e só ilumina o necessário. É operada pelos próprios atores , em cena : uma jogada interessantíssima que nos aproxima muito dos personagens. A mesma regra é aplicada para algumas músicas executadas na trilha sonora. Os momentos em que a música rola quando os atores apertam o play são vivos e nos fazem esquecer que estamos assistindo a uma peça.
A trilha sonora é bem coerente com a estética cool do espetáculo. Versões charmosas de Clássicos como Beat it de Michael Jackson e de novos Clássicos como Tóxic de Britney Spears dão o tom contemporâneo, que, "diga-se de passagem", é ironicamente totalmente anos 80/90. A direção da dupla Michel Blois e Cynthia Reis é inteligente e dinâmica. Os atores seguem um tom extremamente naturalista e leve em contradição com o texto forte e cruel . Essa interpretação nos leva a acreditar até um certo momento do espetáculo que a peça trata-se de uma história sutil e engraçada, porém do meio para o final vamos nos surpreendendo com as máscaras dos personagens caindo e revelando suas verdadeiras intenções. Vamos sendo conduzidos, sem perceber - quase que "de brincadeira"- por uma história densa e dramática. O lúdico dá lugar ao trágico e só percebemos quando o espetáculo acaba e somos obrigados a entender o quanto todos nós vivemos entre seres hipócritas e bonzinhos.
Óculos coloridos, sunquíni, rosa shocking, all star e muito charme são os ingredientes desse caldeirão de criatividade e bom gosto que é o espetáculo "Dois Irmãos".
REVISTA QUESTÃO DE CRÍTICAEspetáculo determinado pela cenografia
"2 irmãos é um trabalho instigante, que faz oportuna contribuição ao panorama teatral desses primeiros meses de 2009."
A montagem de 2 irmãos investe em algumas tendências bastante frequentes em investigações cênicas recentes, principalmente as realizadas por grupos jovens e/ou por companhias movidas por inquietação artística. A mais evidente diz respeito à busca por uma espacialidade diferenciada do formato tradicional, tanto no que se refere à movimentação dos atores quanto à inserção do espectador; a mais interessante reside no comprometimento dos atores com o instante imediato da cena.
Parece haver uma determinação dos diretores Michel Blois e Cynthia Reis em fugir ao convencional. Talvez esta preocupação tenha surgido a partir de uma constatação referente ao modo de transportar para a cena o texto de Fausto Paravidino, que, de fato, não tem nada de muito especial, a julgar pela maneira como o autor aborda a evolução do vínculo passional para a tragédia no relacionamento travado entre Boris e Lev, os dois irmãos do título, e Erica, todos dividindo o mesmo apartamento.
A montagem é, em boa parte, norteada pelo dispositivo cenográfico criado por Alberto Renault, que consiste numa espécie de grande mesa. Em cima dela, os atores transitam entre diversos objetos manipulados ao longo da apresentação (vale destacar a ação com as facas, realizada por Pablo Sanábio, ao final). Aos poucos, os atores desencaixam partes dessa mesa e abrem percursos através dela. É possível estabelecer conexões entre a cenografia e os personagens de Paravidino: no fato de eles não conseguirem estabelecer sintonia, como as trilhas abertas pela mesa que nunca se encontram, e também na grande quantidade de objetos espalhados de forma desordenada, expressando a (des)estruturação de Boris, Lev e Erica.
Mesmo assim, fica a impressão de que a concepção da cenografia decorre, acima de tudo, de uma tomada de posição acerca do fazer teatral. Os diretores defendem uma interação entre o teatro e as artes plásticas (não por acaso, a montagem foi apresentada numa galeria durante parte da temporada no Rio de Janeiro), não só por meio da construção de uma cena condicionada pela instalação cenográfica como de propostas de relação lançadas ao público. Entretanto, as propostas - seja fazer com que os espectadores interajam de maneira mais livre com o espetáculo, no sentido de permitir a entrada e a saída a qualquer momento, ainda que uma história linear esteja sendo contada, seja a acomodação da plateia em bancos nas laterais da sala, ampliando, de certa forma, a horizontalidade do dispositivo cenográfico - carecem de uma fundamentação mais consistente.
É no trabalho com os atores que Michel Blois e Cynthia Reis alcançam os resultados mais promissores. Ana Lima, Diogo Benjamin e, em especial, Pablo Sanábio caminham na contramão de um artificial tom de representação, procurando reagir às situações no momento exato em que ocorrem. É como se o público testemunhasse os atores sendo assaltados por sucessivos impulsos e, ocasionalmente, constrangidos ao se confrontarem com intervenções surpreendentes do personagem/parceiro de cena. A espontaneidade com que passeiam por estados emocionais desponta como resultado de um processo de construção elaborado durante o período de ensaios. Restrições à parte, 2 irmãos é um trabalho instigante, que faz oportuna contribuição ao panorama teatral desses primeiros meses de 2009.

por Marcos Damigo
O espetáculo Dois Irmãos, do italiano Fausto Paravidino, traz dois atores e uma atriz sobre uma grande mesa-instalação criada por Alberto Renault, ali na Galeria de Arte Cândido Mendes. O texto, premiado na Itália, trata de um triângulo amoroso entre os dois irmãos do título e uma garota. O tema, explorado exaustivamente mundo afora, renova-se nas mãos do jovem autor italiano pela crueza com que retrata esses três personagens: eles brigam entre si como se o respeito só pudesse ser conquistado pela agressão. Ao mesmo tempo provocam e seduzem uns aos outros, e consequentemente a plateia, numa espécie de mundo-cão decadente - mas cheio de charme. O espetáculo tem um clima de perigo que provoca prazer e inquietação. A sensação é de que algo está para acontecer a qualquer momento. E acontece mesmo. Mas não vou contar o que é...
Tudo conspira para criar esse clima: dos atores vestidos por Felipe Veloso ao cenário de Renault, composto por objetos variados sobre essa mesa imensa. Cheia de gavetas e portinhas, tem ainda dois aquários, cada um com um peixinho dourado dentro, que refletem os personagens e sua desolação. A iluminação de Paulo César Medeiros, composta por luminárias sobre a mesa, e a trilha sonora de Carol Portes, feita somente por releituras de músicas consagradas (uma mais linda que a outra), são manuseadas pelos próprios atores em cena, e dão o arremate para que se construa um universo consistente.
Com tudo isso a favor, os atores Ana Lima, Diogo Benjamin e Pablo Sanábio se lançam aos papeis com garra e convicção, num jogo vivo de relações tensas e entrecortadas. Ponto para o trabalho da dupla de diretores Michel Blois e Cynthia Reis, que mantém a corda esticada entre os atores. A plateia agradece.
Em tempo: a mesa-instalação de Renault é um capítulo à parte. Para confeccioná-la, os atores conclamaram os amigos por email, pedindo doações de objetos antigos, sem uso. O resultado é uma obra que pode e merece ser visitada durante o dia. Se você estiver passando por Ipanema, vá ver. Antes da peça começar, os atores ficam ali interagindo com luminárias, aquários, ventiladores antigos, livros, baralhos, utensílios de cozinha e até ossos de boi pintados de verde... e até com quem passa por ali.
Ficha Técnica: